sábado, 24 de março de 2012

Reflexões / Desabafos sobre o amor...

Como sempre, vou reflectindo sobre o que se passa à minha volta. Nos últimos tempos, dois conceitos surgiram frequentemente no meu pensamento, porque aparentemente deviam ser tão fáceis de alcançar, mas cada vez são mais difíceis: MATURIDADE e ESCOLHA. Passo a explicar: parece-me que muito frequentemente falta maturidade nas relações interpessoais, o que é fundamental; e as pessoas apercebem-se muito pouco de que o tal livre arbítrio de que muito se fala ligado a questões de religião significa que o Ser Humano faz escolhas a cada momento do seu caminho - mas muitas vezes prefere-se fingir que assim não é, para justificar as más escolhas que fizemos - como se não fossem escolhas mas algo inevitável e instintivo.
E fico muitas vezes triste ao perceber que as pessoas às vezes não são felizes pura e simplesmente devido a estes dois factores em falta - maturidade e exercício efectivo do seu poder de escolha/decisão.

Andei a navegar na net à procura de outras pessoas que falassem sobre estas temáticas, e embora não fosse uma procura muito exaustiva, encontrei algumas coisas.

“O homem é essencialmente auto-determinante.” (Viktor Frankl).

Ora esta é uma verdade inegável, até no que toca a sentimentos. Nós podemos escolher o caminho a tomar - encontrei algo que dizia que o amor é fundamentado na vontade, porque se concentrarmos a nossa atenção, tempo, esforço e todos os recursos em alguém durante um certo tempo, tornamo-nos ligados a essa pessoa. Isto é tão fácil de perceber se pensarmos nas relações familiares, que tomamos como imutáveis e definitivas, e como tal (salvo circunstâncias graves e excepcionais em contrário) investimos nelas, não colocamos em causa a sua continuidade, por isso cimentamos o afecto. Devia ser fácil transpor para as nossas restantes relações afectivas...

Muitas vezes dá-se uma situação, que tanto está ligada à imaturidade quanto à não consciencialização do nosso poder de escolha, que é a idealização do objecto de afecto/amor - situação corrente no início da adolescência, em que se tem grandes paixões por pessoas vistas como perfeitas, mas inatingíveis (pessoas casadas, figuras prúblicas, professores, etc.). Esta situação é vista pela Psicologia como estando relacionada com a resolução dos conflitos edipianos. Por vezes esta situação persiste na idade adulta, o que não era suposto... :)

Neste amor idealizado, o objecto é tratado como se fosse o próprio sujeito, ou seja é investido de libido narcísica. Quanto mais o objecto é idealizado, mais o sujeito se torna fascinado, de forma tal que se estabelece quase que uma servidão voluntária. Diante de sua grandeza "imaginária", o sujeito, em certo efeito hipnótico, tem uma diminuição da capacidade crítica e reflexiva do pensamento.

Quando, em casos excepcionais, estes amores se concretizam, há um grande choque pelo facto de a fantasia se desvanecer em contacto com a realidade. É muito fácil fazer analogia com tantas outras situações correntes e mais banais da vida diária - quando criamos expectativas muito elevadas acerca de determinada situação (seja uma peça de teatro, um filme, um livro, uma viagem, entre tantas outras hipóteses) colocamos a "fasquia" de tal forma elevada que a realidade acaba sempre por ficar aquém... e muitas vezes é-nos tão difícil lidar com esse confronto entre a idealização e a realidade que ainda nos parece pior do que é.

Isto para reiterar a necessidade de encarar o amor como uma escolha consciente, entre a realidade que se nos apresenta e nos rodeia, encarando a pessoa no seu todo, com as suas individualidades, potencialidades e dificuldades, e a fantasia de um amor perfeito, uma alma gémea sem defeitos e que preencha os nossos vazios na totalidade, de preferência montada num cavalo branco... :)

"O amor não é somente um estado psicológico, mas também um processo que se desenvolve e se
aprende através da vida. O amor é uma gnose." (encontrei esta fase na net, que me perdoe o autor mas não tomei nota do nome!)

"A maturidade é uma das pontes elevadiças que leva à fortaleza da felicidade. É o resultado de um trabalho esforçado, sério, paciente, de tirar e acrescentar, de polir, de limar, de tentar que nossa forma de ser seja como uma pedra de canto polida dessas que vemos nos rios e que quase não têm arestas." (idem)

Ou seja, não só não se deve imaginar príncipes ou princesas encantados, perfeitos, idealizados (que podem ser figuras que projectamos nas tais pessoas inalcançáveis, nos amores impossíveis, que como não vemos ao nível da realidade e rotina do dia-a-dia consideramos perfeitos, sem defeitos, sem incompatibilidades connosco), mas também se deve ter a consciência plena que o amor é construído, cultivado (após aquela fase inicial da paixão ou atracção), tem muito a ver com a nossa escolha (nós escolhemos direccionar a atenção, o esforço, o investimento).

Dá trabalho, não há dúvida, investir numa relação, fazer cedências, fazer por vezes sacrifício pelo outro, pensar as coisa a dois, abdicar de outros caminhos, de outras escolhas, aprender a comunicar, aprender a não esconder nada, a ter confiança e partlha, a não colocar em causa a relação sempre que algo corre menos bem, etc, etc.

Sim, dá trabalho construír o amor real, baseado na troca e na aceitação, e dá trabalho mantê-lo, porque depois de anos em que as pessoas mantinham as relações mesmo que sofressem horrores eem que estas eram totalmente simbióticas e muitas vezes repressivas, caiu-se no extremo em que muita gente não está disposta a abdicar de uma vida individual levada ao extremo (com amigos e actividades não partilhados num contexto do casal) e um belo dia acorda-se e não há nada em comum - há dois estranhos, com vidas diferentes e a partilhar a mesma casa.

Depois de tudo o que escrevi, que já vai longo, concluo que fico de facto triste por ver pessoas que podiam ser felizes, se aceitassem quem têm ao seu lado com todas as suas especificidades, se investissem na construção dessa relação, procurando melhorá-la a cada passo, avaliar que escolhas podem fazer para melhorar a qualidade da relação e o afecto que os une, em vez de estar à espera do amor impossível que idealizaram e que nunca será real, porque tal como escrevi mesmo que se concretizasse nunca corresponderia à expectativa e à imagem criada.

Maturidade e consciência de que podemos escolher o nosso caminho (enveredando pelas escolhas reais, perceba-se que não falo em escolher lutar pelos ideiais inalcançáveis) são de facto importantíssimos.

E não quero obviamente, ao reflectir sobre o assunto, dizer que sou perfeita - neste ponto, já penso ter afirmado o suficiente que perfeição não existe), mas pelo menos tento ao longo do caminho ir recordando a mim própria disto tudo, para tentar melhorar, corrigir os erros, e seguir em frente, aproveitando a felicidade do dia-a-dia, porque o tempo voa, e não ser feliz hoje é desaproveitar tempo precioso...

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